Texto do Professor Osvaldo Rodrigues Póvoa.


                    O episódio conhecido na história de Dianópolis como a Chacina dos Nove retrata uma das passagens mais negras das inumeráveis escritas pelas oligarquias cuja paixão não vacila na escolha dos piores caminhos para alcançar seus objetivos: controlar o poder, dar ordens como faziam os capatazes por ordem de seus senhores, no caso de Dianópolis a oligarquia dos Caiado Jardim. Tratava-se de impor uma liderança em que pequena parcela de uma família se aliou a outros grupos para tentar expor uma liderança fraca.

                    Apelando para artifícios torpes, as autoridades locais provocaram um incidente em maio de 1918, envolvendo o inventário de Vicente Belém, assassinado ao findar o ano de 1917 com fundadas suspeitas de implicação das mesmas autoridades, valendo-se da oportunidade para motivar um pedido de socorro aos seus chefes na capital, de que resultou uma Comissão presidida por um juiz togado, o Dr. Celso Calmon Nogueira da Gama, disposto a atuar segundo as conveniências dos seus chefes.

                    A primeira vítima da sinistra Comissão foi o Coronel Joaquim Aires Cavalcante Wolney, assassinado em 23 de dezembro de 1918 por soldados de uma escolta, na fazenda Buracão, mesmo sem ter o coronel oferecido a menor resistência, aliás se entregou dizendo: 

                    -Não me matem, estou entregue!

                    Depois vieram os Nove, no curso dos acontecimentos que a História registra com detalhes. Diante da iminente ameaça de um ataque para vingar o assassinato do Coronel Wolney o Juiz Celso Calmon cuidou de salvar a pele. Fugiu apressadamente  deixando a vila de São José do Duro entregue às autoridades locais com a proteção de cerca de 40 policiais sob o comando de oficiais desesperados que, para tentar evitar ao ataque, tomaram nove reféns, que acabaram sendo fuzilados e sangrados pela polícia. Em ordem alfabética, um breve resumo biográfico de cada um deles, vítimas da inominável monstruosidade.

                    BENEDITO PINTO DE CERQUEIRA PÓVOA - Nasceu na fazenda Beira d'Água distante cerca de 15 quilômetros ao sul da vila de São José do Duro, hoje Dianópolis em 1866. Era filho de Joaquim Antônio Pinto de Cerqueira e Sancha Lino Pereira Póvoa. Seus avós paternos foram Nemésio Pinto de Cerqueira e Benedita Sancha de Araújo. Com a ajuda de seu tio Vítor Lino tornou-se abastado fazendeiro e negociante. Comprava e engordava gado que vendia na Bahia e de onde trazia mercadorias. Em sua fazenda Prazeres tinha um grande depósito de mercadorias para vender por atacado. Era um dos homens mais ricos do município. Capitão da Guarda Nacional, era casado com Amélia Rosa da Silva Costa.

                    JOÃO BATISTA LEAL - Nasceu em Conceição do Norte, hoje Conceição do Tocantins, em 1864(?), filho do Coronel José de Almeida Leal e Antônia de Araújo Bacelar. Casou-se com sua prima Ana Custódia Leal Wolney, filha do Coronel Joaquim Ayres Cavalcante Wolney e Maria Jovita Leal. Em São José do Duro, onde passou a residir após o casamento, foi professor público, embora tivesse que se dedicar a suas fazendas, pois era um rico criador de gado. Em 16 de setembro de 1896, quando foi promulgada a Lei Orgânica e organizado o município de São José do Duro era ele Presidente do Conselho Municipal. Era Major da Guarda Nacional.

                    JOÃO (JOCA) PINTO PÓVOA - Era filho de Benedito Pinto de Cerqueira Póvoa e Amélia Rosa da Silva Costa. Nasceu no dia 29 de setembro de 1900, na fazenda Prazeres, próxima ao local onde nasceu seu pai. Tinha, portanto, 18 anos.

                    JOÃO RODRIGUES DE SANTANA - Era capitão da Guarda Nacional, filho de Marcos Rodrigues de Santana e Maria Jacinta de Araújo Bacelar. Nasceu em maio de 1858 na fazenda Pindoba, do município de São José do Duro, hoje Dianópolis. Era o mais culto dos irmãos tendo exercido por várias vezes o mandato de Conselheiro Municipal e de Presidente do Mesmo Conselho. Tendo dois filhos entre os reféns, não desejando testemunhar a execução deles, pediu para ser executado antes. Os carrascos fizeram o contrário e ele, desesperado, fechou os olhos mas não pôde deixar de ouvir os gritos desesperados dos filhos.

                    JOAQUIM AYRES CAVALCANTE FILHO (Wolneyzinho) - Filho do Coronel Joaquim Ayres Cavalcante e Maria Jovita Leal. Estudante de Medicina no Rio de Janeiro, tinha vindo visitar os parentes quando os fatos começaram a ganhar gravidade. Tomado como refém foi fuzilado pela polícia. Nasceu em 29 de novembro de 1894. Morreu, portanto, com 24 anos.

                    MESSIAS CAMELO ROCHA - Ourives, casado com Aurora Pinto de Cerqueira, sobrinha de Benedito Pinto de Cerqueira Póvoa, filho de José Pinto de Cerqueira Póvoa e Ana Lino Pereira. Era irmão de Justino Camelo Rocha, Escrivão de Família, Órfãos e Sucessões, ligado às autoridades locais, o que não impediu que fosse executado pela polícia. Quando a polícia prendeu os reféns e colocando seus deles no tronco, teve um gesto nobre quando pediu que o colocassem no tronco em lugar de Benedito Póvoa, seu tio por afinidade.

                    NASÁRIO DO BONFIM - Filho de Maria do Bonfim, humilde trabalhador que morava na fazenda Água Boa, de João Rodrigues de Santana para quem trabalhava. Foi tomado como refém junto com o patrão e dois filhos deste. Só este detalhe já prova o grau de violência e insensatez com que se houveram aqueles homens tresloucados. Tinha cerca de 25 anos.

                    NILO RODRIGUES DE SANTANA - Tinha 18 anos, filho de João Rodrigues de Santana e Ana Feícia da Silva Costa (em segundas núpcias). Seu cadáver se achava ao lado dos restos mortais do pai.

                    SALVADOR RODRIGUES DE SANTANA - Era filho do primeiro casamento de João Rodrigues de Santana com Ana Joaquina Bandeira, nascido em Conceição do Norte, hoje do Tocantins. Auxiliava na administração das fazendas de seu pai. Idade provável: 32 anos.

 

 

 

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